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O que acontece no corpo durante o jejum: das primeiras horas à adaptação metabólica

Parto vazio de quem esta fazendo jejum

O jejum é uma prática presente em diversas culturas e tradições há milhares de anos. Nos últimos anos, ele voltou ao centro das discussões científicas por seus possíveis efeitos sobre metabolismo, inflamação e saúde celular.


Quando ficamos algumas horas sem comer, o corpo não simplesmente “fica sem energia”. Na verdade, ele passa por uma série de ajustes metabólicos sofisticados que permitem manter o funcionamento do organismo.


Essas mudanças acontecem gradualmente — desde as primeiras horas após a última refeição até períodos mais prolongados de jejum.


Entender o que acontece no corpo durante esse processo ajuda a compreender por que o jejum pode influenciar o metabolismo e como ele deve ser aplicado com cautela.



Primeiras horas após a refeição (0–4 horas)


Nas primeiras horas após comer, o corpo está na chamada fase alimentada.

Durante esse período:

  • a digestão está em andamento

  • os níveis de glicose no sangue aumentam

  • o pâncreas libera insulina


A insulina permite que a glicose seja utilizada pelas células ou armazenada como glicogênio no fígado e nos músculos.


Enquanto essa fase dura, o corpo utiliza principalmente glicose proveniente da alimentação como fonte de energia.



Fase de transição metabólica (4–12 horas)


Conforme a digestão termina, os níveis de glicose começam a cair.

Para manter o fornecimento de energia, o organismo passa a utilizar as reservas de glicogênio armazenadas no fígado.


Esse processo é chamado de glicogenólise.

Ao mesmo tempo:

  • os níveis de insulina diminuem

  • o glucagon aumenta

  • o corpo começa a mobilizar energia de forma mais eficiente



Entre 12 e 24 horas de jejum


Quando o jejum se prolonga, o organismo começa a intensificar a utilização de reservas energéticas.


Nesse período ocorre:

  • maior mobilização de gordura corporal

  • aumento gradual da produção de corpos cetônicos

  • redução adicional da insulina


Essas adaptações permitem que o cérebro e outros tecidos continuem recebendo energia mesmo sem ingestão de alimentos.



Mobilização de gordura e cetonas


À medida que o glicogênio hepático diminui, o corpo passa a utilizar ácidos graxos armazenados no tecido adiposo.


Parte dessas gorduras é convertida no fígado em corpos cetônicos, que podem ser utilizados como combustível por diversos tecidos, incluindo o cérebro.


Essa mudança metabólica é semelhante ao que ocorre em dietas muito pobres em carboidratos, como a dieta cetogênica.



Ajustes hormonais durante o jejum


Durante o jejum ocorrem mudanças em diversos hormônios importantes para o metabolismo.


Entre eles:

Insulina diminui, favorecendo a mobilização de gordura

Glucagon estimula a liberação de glicose pelo fígado

Hormônio do crescimento pode aumentar, ajudando a preservar massa muscular


Essas adaptações fazem parte do sistema natural de sobrevivência do organismo.



Jejum e processos de manutenção celular


Além das mudanças energéticas, períodos prolongados de restrição alimentar podem estimular mecanismos celulares envolvidos na manutenção e renovação das células.


Um dos processos mais estudados é a autofagia, um sistema de reciclagem celular que ajuda a remover componentes danificados.


Esse mecanismo tem sido investigado por seu possível papel na saúde metabólica e no envelhecimento.



O corpo humano foi feito para lidar com períodos sem comida


Ao longo da evolução, os seres humanos passaram grande parte do tempo alternando períodos de abundância e escassez de alimentos.


Por isso, o metabolismo humano possui mecanismos sofisticados que permitem ao organismo funcionar mesmo durante períodos sem ingestão alimentar.


No entanto, isso não significa que jejuns prolongados sejam adequados para todas as pessoas.



Quando o jejum pode não ser indicado


Embora o jejum intermitente possa trazer benefícios para algumas pessoas, ele não é apropriado em todos os contextos.


Grupos que devem ter cautela incluem:

  • gestantes

  • mulheres em amamentação

  • pessoas com diabetes não controlado

  • indivíduos com histórico de transtornos alimentares


Mudanças significativas na alimentação devem sempre considerar o contexto individual.



Conclusão


O jejum desencadeia uma série de adaptações metabólicas que permitem ao organismo continuar funcionando mesmo na ausência temporária de alimentos.


Essas mudanças incluem a utilização de reservas energéticas, alterações hormonais e, possivelmente, a ativação de mecanismos celulares relacionados à manutenção e reciclagem das células.


A pesquisa científica sobre o tema continua avançando, buscando entender melhor como essas adaptações influenciam a saúde metabólica e o envelhecimento.


Referências


Anton, S. D. et al. (2018). Flipping the metabolic switch: understanding and applying the health benefits of fasting. Obesity. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29951594/

Longo, V. D., & Panda, S. (2016). Fasting, circadian rhythms, and time-restricted feeding. Cell Metabolism. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27475004/

Mattson, M. P. et al. (2017). Impact of intermittent fasting on health and disease processes. Ageing Research Reviews. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28232206/

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