Como perder a timidez sem precisar se tornar extrovertida

Talvez você já tenha se definido assim: “Eu sou tímida.”
E, depois de repetir isso durante anos, a frase deixou de descrever uma dificuldade e começou a funcionar como uma identidade.
Você evita iniciar uma conversa porque é tímida. Não se manifesta em uma reunião porque é tímida. Recusa uma oportunidade que exigiria exposição porque é tímida. Sabe o que gostaria de dizer, mas permanece em silêncio.
Aos poucos, aquilo que começou como uma característica passa a determinar o tamanho do espaço que você consegue ocupar.
Mas há uma distinção importante aqui: ser introvertida não é o mesmo que ser tímida — e nenhuma das duas coisas significa ser incapaz de desenvolver segurança social. |
Uma mulher pode continuar preferindo ambientes tranquilos, poucas pessoas e longos períodos sozinha e, ainda assim, aprender a falar diante de uma plateia, receber desconhecidos, iniciar conversas, liderar reuniões ou defender uma posição com firmeza.
Ela não mudou de personalidade, mas ampliou seu repertório.
E é exatamente aí que devemos começar a falar sobre como perder a timidez.
Você não precisa deixar de ser introvertida
Introversão e extroversão dizem respeito a tendências de personalidade. Timidez envolve desconforto e inibição diante de determinadas situações sociais.
Ansiedade social, por sua vez, pode atingir intensidade e prejuízo muito maiores e, em alguns casos, constituir uma condição clínica.
As três coisas podem se encontrar, mas não são sinônimos.
Isso importa porque existe uma diferença enorme entre pensar: “Prefiro ficar mais quieta.” e: “Gostaria de participar, mas não consigo.” |
No primeiro caso, pode haver apenas uma preferência. No segundo, existe uma limitação.
Ser observadora, refletir antes de falar, precisar de menos estímulo social ou gostar da própria companhia não são defeitos esperando correção.
O problema começa quando usamos nossas tendências de personalidade para explicar tudo aquilo que ainda não aprendemos a fazer.
Todo perfil de personalidade reúne tendências que podem funcionar como vantagens em algumas circunstâncias e como limitações em outras.
Uma pessoa naturalmente expansiva talvez precise aprender a escutar mais, tolerar o silêncio, conter impulsos ou refletir antes de falar. Uma pessoa introvertida talvez precise aprender a iniciar contatos, expor suas ideias e sustentar a atenção de outras pessoas.
Maturidade não exige negar a própria personalidade. Exige conhecê-la suficientemente bem para usufruir de suas qualidades sem transformar suas limitações em destino.
Preferência não é incapacidade
Se algo não nos vem naturalmente, é fácil começar a acreditar que aquilo simplesmente não combina conosco.
“Não sei conversar com desconhecidos.”
“Não consigo falar em público.”
“Não sou boa socialmente.”
“Não tenho personalidade para liderar.”
Mas personalidade não determina, sozinha, aquilo que somos capazes de aprender.
A pesquisa em psicologia da personalidade mostra que, embora os traços sejam relativamente estáveis, nosso comportamento varia conforme a situação. Uma pessoa introvertida não se comporta de maneira igualmente introvertida em todos os contextos. |
Podemos desenvolver comportamentos que não são os nossos mais espontâneos.
Isso não significa viver permanentemente representando alguém que não somos.
Há inclusive pesquisas indicando que sustentar por longos períodos comportamentos muito distantes das próprias tendências pode ter custos para pessoas mais introvertidas.
A questão é outra: Uma competência aprendida não precisa se tornar uma característica da sua personalidade. Ela passa a fazer parte do seu repertório — disponível quando você precisa dela. |
Eu precisei aprender isso na práticaSou introvertida por natureza. Quando era mais nova, estava muito mais próxima do extremo desse espectro e diversas situações sociais me travavam. Faculdade e trabalho começaram a me obrigar a enfrentar algumas delas. Mas houve um momento particularmente importante. Decidi servir voluntariamente em minha igreja local e, para minha surpresa, fui colocada justamente na recepção. Era contato constante com desconhecidos. Aquilo que eu provavelmente não escolheria espontaneamente acabou funcionando como uma espécie de treino. Repetição após repetição, fui aprendendo a fazer algo que antes me causava enorme desconforto. Depois veio outro desafio: fui para a área de ensino. Na primeira aula, falei sentada. Minhas pernas tremiam. Mas havia uma diferença importante: eu sabia o que tinha para compartilhar. Havia estudado, preparado o conteúdo e confiava naquilo que precisava apresentar. O medo não havia desaparecido. Eu apenas já possuía alguma coisa em que me apoiar além dele. Anos depois, ouvi de pessoas: “Nossa, como você é extrovertida.” Não sou. Continuo sendo uma pessoa introvertida que aprendeu, pelo treino, a usar comportamentos que um dia pareceram incompatíveis comigo. E talvez seja justamente esse o ponto: não precisamos esperar que determinada capacidade se torne natural para começar a desenvolvê-la. |
A confiança nem sempre vem antes
Existe uma expectativa sedutora de que primeiro precisamos adquirir confiança e somente então estaremos prontas para agir.
Na prática, muitas vezes acontece o contrário.
Você age ainda insegura. Repete. Percebe que consegue sustentar uma conversa um pouco melhor do que imaginava. Tenta novamente. Comete alguma inadequação social e descobre algo importante: nada particularmente grave aconteceu.
Pouco a pouco, você acumula experiências diferentes daquelas que o medo antecipava.
É justamente por isso que evitar continuamente aquilo que causa desconforto pode alimentar o problema.
A evitação produz alívio imediato: não fui à festa, então não precisei conversar; não levantei a mão, então ninguém me observou; não aceitei apresentar o projeto, então não corri o risco de travar.
E esse alívio pode reforçar a impressão de que evitar era necessário para permanecer segura.
Na próxima ocasião, fugir vai parecer novamente a melhor solução.
Abordagens psicológicas utilizadas para medo e ansiedade sociais trabalham justamente com o movimento contrário: aproximação gradual das situações temidas, experimentos comportamentais e redução de estratégias usadas para escapar do desconforto.
Capacidades sociais são desenvolvidas praticando-as.
Para a timidez cotidiana, esse é um princípio útil: não é preciso começar pelo palco. O treino pode estar em fazer uma pergunta quando normalmente permaneceria calada, iniciar uma conversa curta, sustentar o olhar enquanto fala, expressar sua opinião ou aceitar uma pequena exposição que antes evitaria.
Quando aquilo se tornar manejável, avance um pouco.
O objetivo é aumentar progressivamente aquilo que você descobre ser capaz de fazer.
O objetivo é aumentar progressivamente aquilo que você descobre ser capaz de fazer.
Não foque no que vão pensar de você
Pessoas muito tímidas frequentemente prestam atenção demais em si mesmas durante uma interação.
Como estou parecendo?
Minha voz está estranha?
Será que perceberam que estou nervosa?
O que faço com as mãos?
Falei alguma bobagem?
Esse excesso de auto-observação transforma cada interação em uma espécie de prova. Desloque a atenção.
Por exemplo, na minha primeira aula, minhas pernas tremiam. Mas eu conhecia o conteúdo.
Havia pessoas diante de mim que precisavam compreender alguma coisa — e havia algo que eu tinha me preparado para entregar.
Preparação não elimina o nervosismo, mas oferece um lugar diferente para colocar a atenção.
Antes de uma reunião, conheça o assunto. Antes de uma apresentação, domine o conteúdo. Ao conversar, interesse-se genuinamente pela pessoa em vez de monitorar incessantemente a impressão que está causando.
Quando precisar dizer alguma coisa importante, pense menos em parecer segura e mais em ser clara.
Há uma liberdade enorme quando deixamos de entrar em cada ambiente perguntando “o que estão pensando de mim?” e começamos a perguntar:
“O que estou aqui para fazer?”
Treinar não é fingir
Talvez alguém diga que tudo isso é aprender a “atuar”.
Não vejo necessariamente um problema nessa palavra.
Uma mulher segura também desempenha papéis diferentes conforme a situação. Ela não conversa com uma amiga exatamente como apresenta um projeto profissional. Não recebe um cliente como conversa com a família. Não fala diante de uma plateia da mesma maneira que fala sozinha em casa.
Isso é simplesmente repertório.
Autenticidade não exige que todo comportamento seja espontâneo.
Construir uma personagem para esconder quem somos e desenvolver capacidades para conseguir fazer aquilo que consideramos importante são coisas diferentes .
Se você é naturalmente reservada e aprendeu a abordar pessoas porque seu trabalho exige isso, não se tornou falsa.
Tornou-se mais capaz.
Se aprendeu a falar diante de uma plateia apesar de preferir conversas individuais, não traiu sua personalidade.
Ampliou suas possibilidades.
Aceitar sua personalidade não significa se conformar com todas as suas limitações. Desenvolver aquilo que não lhe vem naturalmente não faz você perder sua identidade.
Então, como perder a timidez?
A resposta é menos espetacular do que prometem muitos conteúdos sobre autoconfiança.
Não existe uma frase que você repete diante do espelho e acorda segura.
Comece distinguindo aquilo que realmente faz parte da sua personalidade daquilo que gostaria de fazer, mas evita por medo.
Depois escolha uma situação pequena o suficiente para enfrentar. Prepare-se quando preparação for possível. Faça mesmo sem se sentir completamente pronta. Repita. Quando aquilo deixar de parecer tão ameaçador, aumente um pouco a dificuldade.
E, principalmente, pare de interpretar desconforto como evidência de incapacidade.
Em algum momento, talvez descubra que algo que antes exigia enorme esforço se tornou comum.
Isso não significa que todo traço de timidez desaparecerá.
Nem precisa.
O objetivo não é tornar-se a pessoa mais expansiva da sala. É conseguir falar quando tem algo a dizer, conhecer alguém quando deseja conhecê-lo, defender-se quando precisa, apresentar uma ideia na qual acredita e aceitar uma oportunidade sem permitir que o medo responda antes de você.
Vencer a timidez é exatamente isso: não tentar mudar sua personalidade, mas desenvolver liberdade suficiente para escolher como agir sem ser governada apenas por aquilo que lhe vem naturalmente.
Contia leitura
Nota editorial
Timidez cotidiana e transtorno de ansiedade social não são a mesma coisa. Quando o medo de situações sociais é intenso, persistente e interfere significativamente no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos ou na vida cotidiana, uma avaliação profissional pode ser mais adequada do que simplesmente tentar “se expor mais”.
Referências
NICE — National Institute for Health and Care Excellence. Social anxiety disorder: recognition, assessment and treatment (CG159). Diretriz clínica que aborda, entre outras estratégias, exposição, experimentos comportamentais e atenção excessivamente autocentrada. Consultar a diretriz NICE
Heiser NA, Turner SM, Beidel DC. Shyness: relationship to social phobia and other psychiatric disorders. Behaviour Research and Therapy, 2003. Consultar no PubMed
Fleeson W, Malanos AB, Achille NM. An intraindividual process approach to the relationship between extraversion and positive affect: Is acting extraverted as “good” as being extraverted? Journal of Personality and Social Psychology, 2002. Consultar no PubMed
Zelenski JM et al. Would introverts be better off if they acted more like extraverts? Exploring emotional and cognitive consequences of counterdispositional behavior. Emotion, 2012. Consultar no PubMed
Jacques-Hamilton R, Sun J, Smillie LD. Costs and benefits of acting extraverted: A randomized controlled trial. Journal of Experimental Psychology: General, 2019. Consultar no PubMed




