Cauterização e selagem capilar alisam o cabelo cacheado?
- Luh Ribeiro- Jornalista

- há 4 dias
- 3 min de leitura
O que o procedimento realmente faz — e onde começa o risco

Cauterização e selagem capilar costumam ser vendidas como tratamentos de recuperação: prometem devolver força, brilho e maciez a fios danificados por química, calor ou desgaste cotidiano. Mas, para quem tem cabelo cacheado ou ondulado, uma dúvida aparece quase sempre antes da decisão:
esse tipo de procedimento pode alisar o cabelo?
A resposta curta é: pode — dependendo de como é feito. A resposta honesta exige ir além do marketing.
O que é, de fato, selagem e cauterização capilar
A selagem capilar, em sua forma técnica, é um procedimento de reorganização superficial da fibra, gerando um efeito de plastificação do fio, geralmente baseado em queratina e agentes condicionantes.
A cauterização segue a mesma lógica, com uma etapa adicional de reconstrução antes da selagem.
Em teoria:
não são alisamentos químicos
não contêm ativos clássicos de relaxamento (como tioglicolato, hidróxidos ou etanolamina)
não deveriam alterar permanentemente a forma do fio
Até aqui, o discurso é correto.
O problema não está na fórmula isoladamente. Está no modo de execução.
Onde começa a confusão: queratina, calor e forma do fio
A queratina é uma proteína estrutural do cabelo. Quando usada em excesso — ou combinada com calor inadequado — ela endurece a fibra.
O procedimento de selagem quase sempre envolve:
shampoo de limpeza mais intensa
aplicação de queratina
uso de secador e prancha para “selar” o produto
É nesse ponto que o risco aparece.
O que a ciência mostra sobre calor e cabelo
Estudos em tricologia e ciência dos materiais capilares indicam que:
acima de ~176 °C, fios fragilizados começam a perder queratina
em torno de 223 °C, ocorre desnaturação proteica
acima de 250 °C, o dano é considerado irreversível para qualquer tipo de cabelo
Desnaturar proteína significa alterar sua estrutura — e isso inclui a forma natural do fio.
👉 Em outras palavras: não é a selagem que alisa. É o calor excessivo aplicado durante o processo.
Então, selagem pode alisar cabelo cacheado?
Sim, pode. Mas não por química direta — e sim por alteração térmica da fibra.
Quando a prancha é usada:
em temperatura elevada
repetidas vezes
sobre fios já fragilizados ou quimicamente tratados
os cachos podem perder definição, relaxar ou não retornar totalmente após as lavagens.
Isso não é “alisamento progressivo” — é desorganização estrutural do fio.
Selagem quebra o cabelo?
Pode quebrar, se:
houver excesso de queratina
o fio já estiver rígido ou elástico
o calor for mal controlado
A queratina em excesso não fortalece indefinidamente. Ela pode tornar o fio duro, pouco flexível — e, portanto, mais propenso à quebra.
Dá para fazer selagem ou cauterização em casa?
Dá — mas exige critério.
O risco doméstico não está na aplicação da queratina em si, mas em:
desconhecimento de temperatura real da prancha
repetição excessiva de calor
leitura equivocada do estado do fio
Sem controle térmico, o que deveria ser tratamento vira desgaste.
Para quem a selagem realmente faz sentido
A selagem pode ser útil quando o cabelo:
está poroso, áspero ao toque
perdeu brilho após química
apresenta cutículas muito abertas
Ela não substitui hidratação profunda.
Ela não corrige dano estrutural severo.
Ela não é indicada para fios com corte químico ativo.
O que fazer depois de uma selagem
Se a selagem foi bem executada:
o fio precisa de manutenção inteligente
não de repetição constante do procedimento
Isso inclui:
redução de atrito mecânico
controle rigoroso de calor
limpeza compatível com o estado do fio
Selagem não é rotina. É intervenção pontual.
Em síntese — o ponto Sphaira
Cauterização e selagem não são vilãs, mas também não são neutras. Elas não alisam por fórmula, mas podem, sim, alterar a forma do cabelo quando o calor ultrapassa limites fisiológicos da fibra.
O cuidado consciente começa quando a leitora entende:
o que o procedimento faz
onde está o risco real
quando vale — e quando não
Não é sobre demonizar técnicas. É sobre tirar o véu técnico que o mercado prefere manter opaco.







