Coca-Cola no cabelo: moda curiosa, efeito real — e os limites que quase ninguém comenta
- Luh Ribeiro- Jornalista

- 12 de jan.
- 3 min de leitura

Em 2015, a modelo e atriz Suki Waterhouse fez uma confissão que soou estranha e irresistível ao mesmo tempo. Ao ser questionada sobre como conseguia suas ondas levemente despenteadas — aquele visual de cabelo vivido, com textura e movimento — ela respondeu que enxaguava os fios com Coca-Cola.
“Eu não gosto do meu cabelo quando ele é lavado — ele fica fino e sem vida — mas a Coca-Cola o deixa mais bagunçado, como se eu tivesse passado pela Amazônia”, disse à Us Weekly.
A frase viralizou. A prática também. E, como toda moda que parece simples demais, voltou a circular anos depois.
Mas afinal: isso funciona mesmo?
E, se funciona, vale a pena?
O que acontece quando se aplica Coca-Cola no cabelo
Do ponto de vista químico, o efeito não é totalmente imaginário.
A Coca-Cola possui pH em torno de 2,5, bastante ácido. Essa acidez provoca um fechamento temporário da cutícula capilar — o que reduz frizz e faz o fio parecer mais alinhado e brilhante no curto prazo.
Além disso, a bebida contém açúcares (xarope de milho), que se depositam sobre o fio, aumentando a sensação de corpo e rigidez leve. O resultado visual lembra o de um spray texturizador: mais volume, mais atrito entre os fios, menos “cabelo escorrido”.
Há ainda outros componentes — como ácido fosfórico, cafeína, aromatizantes e corantes — que contribuem para esse efeito de encorpamento superficial.
Ou seja, sim, a Coca-Cola altera a textura do cabelo. Mas isso não significa que ela trate, cuide, ou seja, neutra para o fio.
O efeito é cosmético — não tratamento
É importante separar as coisas.
A Coca-Cola não limpa o couro cabeludo. Ela não contém surfactantes, portanto não remove oleosidade, resíduos ou impurezas, apesar de algumas pessoas acreditarem nisso.
O que ela faz é depositar substâncias sobre o fio e o couro cabeludo. Com o uso repetido, esses resíduos podem:
aumentar oleosidade,
causar coceira,
favorecer descamação,
dificultar a respiração adequada do couro cabeludo,
e, em alguns casos, agravar queda ou afinamento dos fios.
Em cabelos claros, loiros ou iluminados, há ainda o risco de manchas causadas por corantes e oxidação.
Por que tanta gente gosta do resultado, então?
Porque o desejo por trás dessa prática é legítimo.
Muitas mulheres não querem um cabelo excessivamente macio, leve ou “perfeito demais”. Querem textura, presença, um fio que sustente ondas, que pareça vivido — não recém-escovado.
A Coca-Cola entrega isso rapidamente, mas de forma improvisada.
O que buscar quando a intenção é textura — não improviso
Do ponto de vista cosmético, o mesmo efeito pode ser obtido de forma muito mais previsível e segura.
Produtos como:
sprays texturizadores,
leave-ins com polímeros leves,
finalizadores com pH levemente ácido,
produtos com agentes formadores de filme cosmético,
são formulados exatamente para criar:
atrito controlado entre os fios,
sensação de densidade,
definição sem alisamento excessivo,
e manutenção do equilíbrio do couro cabeludo.
A diferença fundamental é que esses produtos não dependem de açúcar, corantes ou resíduos alimentares para funcionar. Eles formam uma película cosmética funcional, pensada para aderir ao fio e ser removida adequadamente na lavagem seguinte.
Quando a leitora entende isso, a escolha muda: não se trata de repetir um truque viral, mas de identificar qual efeito estético deseja — e usar o meio adequado para alcançá-lo.
Vale a pena usar Coca-Cola no cabelo?
Como prática frequente, não.
Como curiosidade pontual, por diversão ou experimentação isolada, não chega a ser catastrófico — desde que o cabelo seja bem lavado depois e que não se trate de fios claros, sensibilizados ou com histórico de química intensa.
Mas, do ponto de vista de cuidado consciente, não é uma solução inteligente nem sustentável.
Cuidado não é improviso repetido
A Coca-Cola no cabelo é um bom exemplo de como resultado visual imediato não equivale a cuidado capilar.
Na Sphaira, a pergunta nunca é apenas “funciona ou não funciona?”, mas:
Funciona para quê?
Por quanto tempo?
E a que custo para o fio e para o couro cabeludo?
Textura, volume e personalidade no cabelo são desejos legítimos. O que muda é escolher ferramentas que respeitem o fio — em vez de improvisos que só funcionam por um instante.







