Biofilia e design biofílico: você sabe o que é esse estilo de decoração em alta?
- arq Luciane

- 27 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 31 de dez. de 2025
A decoração biofílica vai além da estética. Ao integrar a natureza à vida cotidiana, ela cria ambientes mais equilibrados, confortáveis e sensorialmente acolhedores.
Mais do que um estilo decorativo, o design biofílico surge como uma resposta contemporânea à necessidade humana de reconexão com o natural — especialmente em um mundo cada vez mais urbano, tecnológico e artificial.
Dentro da estética do lar, essa abordagem amplia a forma como pensamos a casa: não apenas como um espaço funcional, mas como extensão do nosso bem-estar e da maneira como habitamos o mundo.
O que é biofilia?
O termo biofilia foi formalmente utilizado pelo psicanalista Erich Fromm, que a definiu como “o amor apaixonado pela vida e por tudo o que está vivo”. A palavra vem do grego bios (vida) e philia (afeição, amizade).
Na década de 1980, o biólogo americano Edward O. Wilson ampliou o conceito ao descrever a biofilia como um impulso biológico e genético dos seres humanos para se conectar com a natureza e outras formas de vida. Em seu livro Biophilia (1984), Wilson argumenta que essa conexão não é cultural — é instintiva.
A partir daí, áreas como arquitetura, urbanismo e design de interiores passaram a estudar como essa relação pode ser integrada ao ambiente construído.

Biofilia não é novidade: a natureza sempre inspirou o design
Embora o termo seja contemporâneo, o conceito não é novo. A história da arquitetura e do design revela inúmeras expressões dessa conexão.
Um exemplo emblemático é Antoni Gaudí, arquiteto espanhol cuja obra se inspira profundamente nas formas orgânicas da natureza. O mesmo acontece no Art Nouveau (final do século XIX e início do XX), movimento marcado por linhas curvas, motivos florais e referências diretas a plantas, flores e animais.

Ou seja, já exploramos a biofilia intuitivamente há séculos — hoje apenas damos nome, método e intenção a essa relação.
A biofilia como instinto humano
A biofilia vai além do gosto pessoal. Ela está ligada à nossa história como espécie. Nossos ancestrais viveram em contato direto com a terra, a vegetação, a luz natural, a água e os ciclos da natureza.
Na minha percepção, essa conexão se revela como a lembrança profunda do Jardim do Éden — uma memória inconsciente que carregamos e que ainda orienta nossa busca por conforto, bem-estar e pertencimento nos espaços que habitamos.
Diversos estudos indicam que ambientes com elementos naturais:
reduzem o estresse
melhoram a concentração
favorecem o equilíbrio emocional
impactam positivamente a saúde física e mental
No habitat moderno — altamente urbano e artificial — essa conexão é frequentemente negligenciada. O design biofílico surge como forma de reintegrar o natural aos espaços onde vivemos.
O que é decoração biofílica?
A decoração biofílica parte do princípio de que a casa não é apenas um local de abrigo, mas um refúgio sensorial. Um espaço que acolhe, regula estímulos e favorece equilíbrio físico e emocional.
Essa abordagem se manifesta na escolha consciente de materiais, cores, formas, luz e elementos vivos, criando ambientes que dialogam com a natureza sem abrir mão da funcionalidade contemporânea.
Essa busca por conforto e pertencimento se reflete diretamente nos ambientes da casa, influenciando desde a distribuição dos móveis até a forma como a luz e o ar circulam.
Como aplicar o design biofílico na decoração
Paletas calmantes inspiradas na natureza

Verdes terrosos, azuis suaves, beges e tons de areia criam uma base visual serena. Essas cores funcionam especialmente bem quando combinadas com madeira, pedra e fibras naturais.
Paredes vivas e vegetação integrada

Jardins verticais e paredes verdes funcionam como pontos focais e contribuem para a qualidade do ar. Mais do que decorativas, essas soluções ampliam a sensação de contato com o exterior.
Formas orgânicas

A natureza não é rígida nem simétrica. Móveis com linhas curvas, estruturas arredondadas e silhuetas suaves criam um fluxo visual mais acolhedor e convidam ao relaxamento.
Mais luz natural

A luz natural regula o ritmo biológico e influencia diretamente o humor.
Abra ou substitua cortinas pesadas
Reorganize móveis que bloqueiam janelas
Considere claraboias, portas envidraçadas ou vãos maiores (sempre com orientação profissional)
Superfícies reflexivas, como espelhos e mesas de vidro, ajudam a potencializar a luz disponível.
Recantos verdes e espaços de pausa

Cantos com plantas, poltronas confortáveis e iluminação suave criam espaços de descanso, leitura ou meditação. Pequenos refúgios internos reforçam a ideia de cuidado e desaceleração.
Elementos de fogo
O fogo desperta sensação de acolhimento. Lareiras, lareiras ecológicas ou mesmo velas introduzem calor visual e atmosfera íntima — sempre com atenção à
segurança.
Sons da natureza

Fontes de água ou aquários introduzem sons naturais que favorecem relaxamento e conexão sensorial com o ambiente.
Tons terrosos como base
Marrons, verdes, argilas e azuis naturais criam ambientes equilibrados. Eles podem dominar pisos e paredes ou aparecer em detalhes, contrastando com cores mais claras.
Móveis descombinados

Na natureza, nada é perfeitamente igual. Misturar cadeiras, mesas laterais e peças diferentes cria um ambiente mais orgânico e menos rígido. Estilos como o boho dialogam bem com essa proposta.
Varie alturas e escalas
Plantas, luminárias e móveis em diferentes alturas criam dinamismo visual e reproduzem a irregularidade natural das paisagens.
Valorize a pátina natural

Materiais que envelhecem com beleza — como madeira, couro, mármore, cobre e pedra — reforçam a estética biofílica. A pátina conta histórias e adiciona profundidade ao espaço.
Trabalhe com texturas

Combine superfícies lisas e ásperas, tramas naturais, fibras, madeira e pedra. A riqueza tátil é parte essencial da experiência biofílica.
Peças naturais e artesanais

Troncos, discos de madeira, cerâmicas manuais e objetos orgânicos dialogam com conceitos como o Wabi-Sabi, valorizando imperfeição, autenticidade e tempo.
Materiais pouco industrializados

Bambu, cortiça, palha, junco e ráfia passam por menos processos químicos e oferecem experiência estética e sensorial mais próxima do natural.
Plantas — sempre elas

Plantas são o elemento mais direto do design biofílico. Use com critério, respeitando luz, ventilação e escala do ambiente. Mais importante que quantidade é integração.

Como linguagem dentro da decoração, o design biofílico propõe menos rigidez estética e mais conexão sensorial. Ele convida a casa a respirar, a envelhecer com dignidade, a refletir o tempo e a vida que passam por ela.
Não se trata de reproduzir a natureza, mas de conviver com ela — mesmo dentro de um ambiente construído.






